2016

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15 janeiro 2014

abraço

desde há uns anos que sou admiradora do José Luís Peixoto. comecei por ler Uma Casa na Escuridão, ainda adolescente, em 2002, ano da primeira edição. lembro-me de ter adorado o livro, porque finalmente encontrara alguém que escrevia muito daquilo que eu sentia naquela altura. a adolescência é, por definição, um período escuro e de isolamento na nossa vida. pelo menos na minha foi. ouvia imensa música fechada no quarto, quanto mais triste melhor, e lia muito, sobretudo coisas que achava que sabia interpretar, mas que se voltasse a ler acharia eventualmente uma grande chatice.
não foi o caso do José Luís Peixoto, que já li entretanto, mais crescidinha. porém, continuo a ter aquela sensação de vazio, de um lado muito sombrio na literatura dele, que é coisa que tento afastar da minha vida nesta altura. há coisas que nos marcam em determinados momentos (um filme, uma canção, um livro) e este Abraço não é definitivamente um deles. trata-se de um conjunto de crónicas do autor que apareceram em várias publicações e essa é a única razão que pode tornar a leitura mais fácil, dado que os textos são muito curtos. mas depois há todo um lado sempre negro, os pensamentos passados diretamente ao papel, com uma crueza e por vezes uma rudeza difíceis de digerir. fiz um esforço para gostar, mas confesso a minha incapacidade para, na maior parte das crónicas, o conseguir. retive alguns parágrafos, que marquei, mas estava ansiosa por chegar à última página. foi ontem, quase três meses depois de ter começado.
agora espera-me um muito promissor Deixem Falar as Pedras, do ainda mais promissor David Machado. esta manhã li meia dúzia de páginas e não me apetecia parar.



"Eu não sou a primeira pessoa da vida de ninguém, não sou a pessoa mais importante da vida de ninguém. E apesar de esta verdade me doer, não me posso queixar. A culpa é apenas minha. Eu tenho de sair. Tenho de enfrentar a cidade concreta abstracta, tenho de decifrar semáforos, atravessar um certo esquecimento e chegar à casa onde espero sozinho".


José Luís Peixoto in Abraço

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