2016

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15 junho 2014

Algo para te dizer II

um dos meus objetivos para este fim de semana era acabar de ler este livro. trata-se de um romance de um escritor inglês sobre um psicanalista paquistanês, a viver em Londres, numa década, de 70, em que a revolução sexual e a disseminação das drogas estavam na moda, por oposição a assuntos sérios, como a eterna batalha entre as forças de trabalho e o capitalismo. a cultura da época é também um elemento muito presente ao longo do livro e arrisco dizer que acabamos por aprender algumas coisas ao lê-lo.
a vinte páginas do final, deparei-me com um assunto que me é muito próximo: o cancro da mama. próximo, porque sou mulher, mas principalmente porque o histórico familiar ou do meu círculo próximo de amigas já conta com alguns casos.
eu, que adoro livros, tenho a mania [ou heresia] de ir dobrando a ponta das páginas que têm excertos de que gosto particularmente. com este livro isso não aconteceu, não apenas porque é emprestado, mas porque na realidade se trata de uma história e não lhe encontrei grandes citações para a posteridade.
dizia eu que, a vinte páginas do final, parei. de repente há uma personagem que sofre desta doença e a descrição que se segue é absolutamente arrepiante, sobretudo se pensarmos que foi escrita por um homem. é um bom livro para ler nas férias, cheio de filosofias e interrogações psicanalíticas e de relações humanas, mas descritas com grande humor, leveza e sem pretensões. este, para mim, é o excerto mais marcante de todo o livro. 



"Pode ter sido tolice minha, mas tomei uma atitude responsável e marquei consulta com o médico-herói. Quando me perguntou se havia algum motivo em particular que me fizesse querer marcar consulta, respondi que não, que queria apenas fazer um exame de rotina. (...) Não queria determinar as suas observações, dar-lhe um plano. (...) Ambas as mãos no meu seio esquerdo. De repente, deixei de conseguir ouvir, de conseguir respirar. Mas era importante manter um ar normal. Se me queria arrastar para a história do cancro, então ia ter de fazer o seu trabalho. (...) "Está tudo bem, em cima e em baixo. Tem um útero lindíssimo. Até à próxima." Estava livre. Tinha ultrapassado aquilo. "Quer dizer que não encontrou nada?" Não devia ter dito aquilo. (...) "Talvez seja melhor voltarmos a ver, só para ter a certeza, está bem?" (...) As suas mãos dirigiram-se imediatamente para o esquerdo. (...) Os dedos de ambas as mãos passam e tornam a passar por cima da coisa. Movem-na de um lado para o outro, isolam-na, pescam-na de novo. Agora já não olha para mim. Deixa de ser o meu médico jovial, mais velho, atraente, cool e charmoso. Transformou-se numa sentinela da equipa do cancro, e está prestes a incluir-me no sistema, o sistema que acaba com as mulheres. Assim que entramos, acabou-se. Deixamos de ser uma mulher que tem importância no mundo. Como poderia eu aguentar aquilo? A obliteração, a fealdade, a devastação de não ter seios nem cabelo?"

Hanif Kureishi in Algo para te dizer

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