2016

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03 julho 2014

"o segredo dos dias"

sou, sem dúvida, uma recompensadora. tenho dias em que me apetece empurrar tudo com a barriga, para quando a disposição pedir trabalho. isso raramente acontece e deve ser essa a razão pela qual trabalho muito melhor sob pressão. cansa-me mais, há dias em que fico de rastos, mas a ansiedade e o nervosismo fazem-me redobrar a atenção naquilo que faço. depois, a recompensa merecida. :)

"Quando há muito para fazer, que é sempre, o melhor é fazer como se nada houvesse para fazer e deixar tudo para o pouco tempo – que infelizmente tem de ser medido – que resta para fazê-lo.
Nos dias de maior trabalho, permita-se o maior luxo. Não depois, mas antes. Ou melhor: antes para quem sente que roubou um pecado e tem de pagá-lo e depois para quem sente que merece uma recompensa por ter trabalhado tanto.
Os seres humanos dividem-se entre os castigadores e os recompensadores. Talvez os primeiros sejam mais judeus e católicos e os segundos mais islâmicos e protestantes.
Para os castigadores o trabalho é o preço que se paga pelo prazer, pelo adiamento, pelo facto de não ter investido o tempo bastante para tentar urdir um resultado perfeito.
Para os recompensadores primeiro trabalha-se e depois celebra-se o ter trabalhado.
Só agora me ocorre, tarde na vida, que ambas as atitudes são oprimentes, tornando-nos em porquinhos-da-índia que comem conforme põem a roda que está na jaula em movimento.
É um erro equiparar o trabalho ao prazer, seja anterior ou posterior. O trabalho é sempre um sofrimento, um esforço, uma coisa que, tal como o Bartleby de Melville, se preferia não fazer.
O segredo dos dias é dividir o tempo entre aquele que nós queremos ocupar e aquele que outros querem, por interesse ou amizade, que nós ocupemos.

É sempre melhor fugir e, depois, pagar o preço de fugir, que é sempre mais barato do que o custo de ficar. Ou não".

Miguel Esteves Cardoso in Público, 03 de julho

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