2016

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05 agosto 2014

murro no estômago

tinha um texto escrito sobre a minha manhã antes mesmo de ela acontecer. agendei-o. por alguma razão, o blogger não o publicou. ainda bem. há coisas assim.
estava orgulhosa por me ter levantado às sete, tomado o pequeno almoço com toda a calma e ter ido até ao paredão, absorver os primeiros raios de sol da manhã, naquela hora em que, caminhando ao lado do mar, vou eu com a minha música e os meus pensamentos. depois fiz uma série de abdominais, os alongamentos da ordem, duche e estava pronta para sair. estava mesmo orgulhosa, porque não é uma coisa que eu faça: levantar-me cedo. e para fazer exercício.
ia falar disto com ligeireza, qual post de verão sobre motivação. ia, mas já não consigo. porque, ao estacionar à porta de casa, deparei-me com um menino, que não teria mais do que dez anos, que me estendeu a mão e pediu um euro "para comprar um bolinho, porque estou cheio de fome". e toda a ligeireza desapareceu naquele instante, com este murro no estômago. 
não me lembro nunca de ter dado dinheiro a quem pedia na rua. tentei, por duas ou três vezes, pagar um lanche a quem dizia ter fome, mas as pessoas acabavam por me virar as costas, provando que fome não era aparentemente o problema. 
mas hoje foi diferente, pelo menos na forma como o senti. aquela criança tinha um olhar tão triste e, pareceu-me, tão sincero, que não consegui recusar. só tinha uns trocos, não chegava a dois euros. mas dei-lhos. e dei-lhos com o aperto no coração de quem o queria por no colo e consolar, levar para casa e fazer-lhe um pequeno almoço como certamente nunca viu. e garantir-lhe que a vida não é sempre assim, que as dificuldades não estão sempre ao virar da esquina e que com esforço e sorte [muita, na maior parte das vezes] a vida muda para melhor. 
não sei como se explica a uma criança as injustiças no mundo, se nem eu as sei perceber. não sei como fazer uma criança, que só conhece a miséria, acreditar que é possível, é sempre possível lutar e fazer tanto por si e por quem a rodeia, mesmo que as condições não pareçam favoráveis. não sei. e estou até agora com um nó no estômago, a pensar que aquelas moedas podem ter sido suficientes para matar a fome naquele momento, mas não lhe alimentaram a alma nem a esperança. 

5 comentários:

Ana Burmester Baptista disse...

E deixaste-me a mim com o nó na alma, agora....

Enjoy the Ride disse...

:(

Joana disse...

Essas situações são tristes... tudo parece fútil em comparação. Mas fizeste uma boa acção e de certeza que isso fez uma pequena diferença no dia desse menino.

Polliejean disse...

:(

Enjoy the Ride disse...

mas é sempre tão pouco, Joana. :(