2016

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08 janeiro 2015

da liberdade

quando criei este blog, defini para mim que aqui só caberiam partilhas pessoais, da blogosfera ou do mundo em geral, que me fizessem sentido, mas sempre tendo o otimismo como pano de fundo. trabalho numa empresa de comunicação social e, por essa razão, vivo rodeada por notícias e acontecimentos que nem sempre são aqueles que mais gostaria de ouvir. o mundo é um belo lugar para se viver, mas tem alguns lugares muito estranhos e obscuros para se estar. nesses lugares, esconde-se gente muito má. e eu quis afastar essa energia daqui, evitando falar de atualidade ou dando opiniões que, sendo minhas e podendo eu expressá-las, podem ser controversas. mas, perante o atentado de ontem, em Paris, abro uma excepção. faço-o por várias razões, mas sobretudo porque a indignação e o choque não têm fronteiras. 
muitas vezes, ouvimos ou lemos alguma coisa que traduz exatamente o nosso pensamento, sem que tenhamos tido a arte de o ter dito primeiro. foi o caso hoje, quando vinha no caminho para o trabalho e um ouvinte dizia na rádio que a liberdade de expressão é um direito inalienável de todos nós, mas deve ter o limite da liberdade dos outros. nada - nenhuma religião ou nenhum deus - justificam o que aconteceu ontem. como nada justifica o 11 de setembro em Nova Iorque, o 11 de março em Madrid, o 7 de julho em Londres ou todos os atentados no ocidente, nos países muçulmanos ou em qualquer parte do mundo. 
há dias li uma crónica num jornal online, sobre a qual me apeteceu escrever aqui. uma crónica que, não obstante o conteúdo (com o qual eu concordo inteiramente), tinha palavrões a torto e a direito. não que eu seja púdica ou conservadora (não sou, de todo), mas aquilo incomodou-me. se fosse uma crónica radiofónica ou televisiva, não seria transmitida. mas, como era num jornal, e todos temos a escolha de a ler ou não (embora só depois de a ler saibamos ao que vamos), a liberdade de expressão e de imprensa desculpa tudo. 
há uma linha muito ténue, que todos interpretamos certamente de forma distinta, que separa a nossa liberdade da liberdade dos outros. 
dizia esse ouvinte que, na Europa, vivemos a religião de forma muito diferente. tem razão. sinto-me totalmente à vontade para o dizer, porque nem sequer sou crente. provavelmente, um cartoon satírico de cariz religioso e a gozar com o Cristianismo suscitaria indignação em meia dúzia de crónicas na imprensa... e talvez nem isso. essa é a postura ocidental. não é o que acontece nos países muçulmanos: a religião é parte da vida do povo e é por isso que, perante um cartoon de Maomé publicado há 9 anos na Dinamarca, houve manifestações de milhares de pessoas nas ruas e o fecho de algumas embaixadas. 
somos todos diferentes, nem piores nem melhores. a educação e a cultura só pode ser vista à luz de quem lá (ou cá) vive e as críticas generalizadas são muito perigosas. a liberdade de expressão é igual a todas as outras liberdades: eu não posso dizer o que quero, quando quero, onde me apetece. aquilo que para nós é humor, ao nosso lado pode ser interpretado como uma ofensa grave. e vice versa. porque a liberdade é o melhor dos direitos, mas serve-nos a todos e não apenas quando nos interessa. 
repito, nada justifica o que aconteceu. estamos de luto enquanto pessoas que herdaram várias liberdades fundamentais, que tanto custaram a conquistar aos nossos antepassados. por essa razão, respeitemo-las. a liberdade de expressão deve ser, sim, bem utilizada como a melhor arma para combater este radicalismo e este extremismo que não entendemos e que nunca, em nenhum país, crença ou religião pode justificar qualquer acto de violência ou crueldade tamanhas.

Nós somos Charlie porque não temos medo de idiotas que acham que vão para o céu e depois não vão. Hão de estar num sítio escuro, ou escondidos da polícia, ou escondidos do Deus bondoso e risonho, o único que todas as teologias permitem. E somos mais Charlie ainda, porque não tendo medo, não ripostamos: não proibimos Mesquitas como vocês proíbem Igrejas. Não decapitamos inocentes e, se alguns dos nossos países têm pena de morte, não é por motivos religiosos, nem por blasfémia. Ultrapassámos essa fase há séculos, seus retardados mentais.

(...)
Que ganharam com isto, seus parvos? Pensam que vamos dar força aos que querem expulsar os islâmicos da Europa? Não vamos. São bem vindos, porque como costumamos dizer, Bem vindo seja quem vier por bem!

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