2016

2016

01 março 2015

das fotografias

"e foi assim, abrindo a gaveta à procura de qualquer outra coisa, que, sem aviso, me escorregou para as mãos uma fotografia tua tirada durante aqueles quatro dias. fiquei a olhar-te longamente, longa, longa, longamente. e longamente me fui dando conta de que tudo aquilo acontecera mesmo: eu não o sonhara, durante vinte anos. nisso, quando guardam para sempre um instante que nunca se repetirá, as fotografias não mentem - esse instante existiu mesmo. porém, a mentira consiste em pensar que esse instante é eterno, que dois amantes felizes e abraçados numa fotografia ficaram para sempre felizes e abraçados. é por isso que não gosto de olhar para fotografias antigas: se alguma coisa elas reflectem, não é a felicidade, mas sim a traição - quanto mais não seja, a traição do tempo, a traição daquele mesmo instante em que ali ficámos aprisionados no tempo. suspensos e felizes, como se a felicidade se pudesse suspender carregando no botão 'pausa' no filme da vida."

Miguel Sousa Tavares in No teu deserto


e depois... bom, depois apercebes-te que nem fotografias tens. que não há papel ou registo digital dos momentos felizes. recorres apenas à tua memória, confiando que ela nunca te atraiçoe. relembras os almoços, os jantares, as longas conversas. retens aqueles momentos de mão dada, os abraços sem fim, os beijos que te aqueciam a alma, para guardares e recordares quando a distância teimava em doer. não tens uma imagem segura, eternizada numa fotografia, mas tens as imagens que recolheste nos momentos de ternura. e essas são seguramente as mais fiáveis, as que te amparam nos dias escuros e te limpam as lágrimas que caem inesperadamente. vives à espera, mas sabes, no fundo sabes, que a esperança termina um dia, sem razão aparente. sabes que o caminho sempre foi longo, mas acaba inevitavelmente no mesmo beco sem saída que conheces de cor. consegues sentir o fim a aproximar-se, mas prolongas mais um pouco, só mais um pouco a sensação de segurança que sonhaste poder ter. não tens fotografias, mas tens as tuas recordações, que te permitem ancorar num porto de abrigo que existiu, embora só tu saibas. mas não faz mal, porque a tua história é tua e de mais ninguém. e o que viveste está em ti, na tua pele, na tua mente, no teu coração. e esses ninguém poderá queimar ou apagar. 

Sem comentários: