2016

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09 março 2015

Eddie

se me dissessem há cinco anos que eu ia ter um gato e que seria uma mariquinhas com os animais, ter-me-ia rido. muito. desde miúda que tinha medo de cães e sempre tive a ideia (generalizada, mas tão errada) de que os gatos são traiçoeiros e demasiado independentes para se apegarem aos donos. por ironia do destino, a minha irmã tornou-se veterinária. e, por uma ironia ainda maior, convenceu-me há quatro anos que eu precisava mesmo de um gato, porque era uma companhia fofinha. ainda hoje não sei como, mas acolhi cá em casa um gatinho cujo destino era incerto. por alguma razão que ainda hoje não consigo explicar, a conversa mimimi, de que eu poderia salvar um bichano que ia ser abandonado (hoje sei que a dona seria incapaz de o fazer), tocou-me ao coração. 
dizem que a melhor forma de vencermos um medo é enfrentá-lo. ora, nos primeiros quinze dias, ainda o gato não tinha dois meses e era apenas uma bolinha de pêlo saltitona, toda eu tremia de medo dele. era lindo quando estava sossegadinho, a dormir no meu colo, mas depois toda aquela energia dos animais bebés me dava nervos e eu fugia dele a sete pés. acho que se alguém tivesse filmado aquelas duas semanas ridículas, hoje eu seria certamente motivo de chacota. pensei mesmo em devolvê-lo à dona, porque não sentia que fosse nascer qualquer laço entre nós. no fim dessas duas semanas, meti na cabeça que, já que a decisão de ficar com ele estava tomada, era bom deixar de ser maricas e tomar as rédeas da situação. não sei que magia aconteceu entretanto... comecei por me aproximar, deixei de temer as brincadeiras com dentadas e arranhões, derretia-me com cada gracinha que ele fazia, mesmo que isso implicasse pendurar-se nas cortinas ou estragar o sofá. quando dei por mim, o espaço que inicialmente lhe dava, entre a cozinha, a sala e a varanda, de repente tinha-se alargado a todas as divisões. e eu passei a viver aqui de favor, já que o Eddie se tornou rei e senhor da casa inteira. 
quando ele adoeceu e nenhum veterinário chegava a uma conclusão sobre o que ele tinha (já a minha irmã tinha avançado um diagnóstico nada simpático, que veio depois a confirmar-se), permiti que a porta do quarto ficasse aberta de noite. o meu coração apertava-se de cada vez que imaginava que ele pudesse passar mal de noite e eu não ouvisse. o diagnóstico confirmou-se: asma felina. é grave, mas, controlado com medicação e com alimentação específica, pode ter uma vida normal. claro que nunca mais tive coragem de o expulsar do quarto. 
do pavor que eu lhe tinha há quatro anos, chegámos ao dia de hoje: vai à varanda e mia, quando me pressente chegar ainda no fundo da rua, espera-me à porta para se esticar assim que eu entro e pede festas na barriga, anda atrás de mim para todo o lado, só dorme comigo e se estiver encostado a mim. quatro anos, completos hoje, de grande aprendizagem, de muitas cedências, mas sobretudo de um longo caminho que me amoleceu o coração e que agora me faz sofrer com todas as histórias de cães e gatos que não têm a mesma sorte que o Eddie teve, que me faz derreter com todas as fotografias de animais fofinhos, que me faz querer acolher todos os animais abandonados. um amor incondicional, que jamais sonhei sentir, sobretudo por um patinhas cheio de personalidade e de teimosias. mas o amor é assim, inexplicável. e hoje está de Parabéns. :)


2 comentários:

Diana Ribeiro disse...

Que texto lindo! É bem verdade que também com os animais construímos uma relação, que necessita de tempo e aprendizagem. Tenho três cães e todos eles com personalidades (se assim podermos dizer) distintas.

Enjoy the Ride disse...

obrigada, Diana. :) por tudo isso é o meu amor pequenino.