2016

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18 outubro 2015

Perguntem a Sarah Gross

"As vítimas caminhavam angustiadas, mas longe de imaginar o que as esperava. Havia-lhes sido prometida a permanência no campo, mas, para tal, deveriam em primeiro lugar tomar banho, desinfetar-se. Iludidas com essa perspetiva, entravam no edifício do crematório, despindo-se completamente. A seguir mudavam-se para a sala dos duches, de cujo teto pendiam várias bocas de chuveiro. Já lá dentro, aguardavam que todo o grupo fosse instalado, até que a porta se fechava hermeticamente. Apesar das mentiras em que queriam acreditar, a ansiedade ia crescendo à medida que os segundos passavam e a água não corria. Até que, finalmente, todos os demónios irrompiam pela sala ao mesmo tempo. Quando o gás começava a fazer-se sentir, os corpos fundiam-se no desespero. Todos tentavam, por todos os meios, elevar-se o mais possível, para adiar a morte. Como se pede a uma mãe que escolha entre o ar que respira e o filho que lhe pende dos braços? Como se pede a um homem solidário que o seja ainda, quando, para viver mais uns instantes, tem de pisar o rosto de um amigo? Os gritos eram a única expressão com que se podia dizer adeus a um filho, a um pai, a um irmão..."

João Pinto Coelho in Perguntem a Sarah Gross

sinopse
há alguém que conheço e que costuma dizer, a propósito dos livros e dos filmes medianos ou banais, que não mudam o curso da vida de ninguém. mas, de quando em quando, há um assim, que muda tudo. naturalmente, o momento em que nos entram pela vida dentro é determinante. foi o que aconteceu com esta obra, finalista do Prémio Leya, em 2014, que comprei na Feira do Livro, simplesmente porque, ao ler a sinopse, abordava a II Guerra Mundial, tema que me é muito caro. não me lembro da última vez que tinha chorado a ler um livro. e ainda não sei muito bem o que escrever sobre ele, tal foi a força com que me atingiu. estou numa espécie de ressaca, a tentar aceitar que cheguei ao fim daquele caminho, que as páginas se fecharam e que todas aquelas personagens vão agora descansar na prateleira, deixando para trás a brutalidade da sua existência.
imaginem que descobrem, por acaso, correspondência antiga, de alguém de família, que passou por um campo de concentração. o exagero é propositado: estas personagens foram, ao longo do tempo em que o livro esteve à minha cabeceira, uma espécie de parentes afastados, que fui conhecendo e a quem me afeiçoei. o livro é envolvente a este ponto. depois, é como se estivéssemos lá, como se os nossos sentidos coubessem ali, em todos os espaços, durante a prosperidade e, mais tarde, na decadência. é, ao mesmo tempo, uma leitura brutal, violenta, e doce, terna. difícil de entender, eu sei. se soubesse o quanto me inquietaria, provavelmente não escolheria lê-lo nesta altura. mas li. e, sem me querer contradizer, acho que o fiz no momento certo, porque há tanto dali que vou retirar para o meu futuro próximo, que creio que ainda não assimilei bem a sua importância. 
não é leitura para todos. mas todos deveriam ler. há, sobretudo atualmente, murros no estômago que temos de sofrer. e este livro é isso e muito, muito mais. 

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