2016

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04 fevereiro 2016

o país dos indignados

a distinção é certamente exagerada: José Rodrigues dos Santos eleito o melhor escritor português. todas as notícias que li a respeito disto me pareceram tendenciosas, a insinuar claramente que o título não é merecido. a função do jornalista não é avaliar. no entanto, é perfeitamente legítimo que, se o faz, o mais comum dos cronistas e dos mortais também tenha direito a ter uma opinião. e a dá-la. 
a polémica do dia começou ontem à noite. hoje de manhã, assim que abri o Facebook e os jornais online, multiplicavam-se os achistas e indignados. não sei onde todas estas pessoas, sedentas de protestar - a maioria apenas pelo prazer de destilar um veneno que traz contido nas entranhas, vá lá o mundo saber porquê -, andavam antes de existirem as redes sociais, mas estas novas plataformas vieram sem dúvida potenciar essa postura amarga perante a vida. a maior parte das vezes só é preciso acender o rastilho. a opinião nem sequer é fundamentada, talvez mesmo não saibam bem de que estão a falar. mas falam. e escrevem. e gastam energia e tempo a dizer mal, pelo puro prazer que isso lhes dá (dará?).


fui aluna do José Rodrigues dos Santos. fiz a cadeira com 13, uma das piores notas que tive durante o curso, mas foi sem dúvida uma das cadeiras de que mais gostei. admiro o seu trabalho como jornalista e acho que o seu percurso não deixa margem para dúvidas: passou pela BBC, foi colaborador da CNN e diretor de informação da RTP. mas nada disso importa, quando ele, que por acaso também é humano, erra. crucificam-no. acusam-no. 
agora ganhou um prémio, ultraje! podemos questionar se o título de melhor escritor português é adequado (eu, que já li livros dele, discordo em absoluto), mas a verdade é que o homem vende. e vende muito. escreve em português correto (o que vai sendo raro hoje em dia). e põe este país a ler. se isso não é válido, não sei o que será.
nem todos nascemos para gostar e compreender o Ulisses, do Joyce, ou Guerra e Paz, de Tolstoi. ou mesmo a Aparição, de Vergílio Ferreira, que era obrigatório ler na escola. isso não significa que sejamos todos uma cambada de ignorantes. mas, quem os lê ou ouve falar, diria que estes achistas indignados são as pessoas mais cultas, mais informadas, mais letradas e eruditas. a mim só me parece que esta coisa das redes sociais tem intensificado esta cultura de maldizer tão portuguesinha, de gente que não tem vida ou tem uma vida tão desgraçada que, em vez de se concentrar em endireitá-la, anda a chatear os outros.

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