2016

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04 abril 2016

dos enganos

lembro-me desde sempre de me dizerem que herdei o lado menos bom do feitio do meu Pai: difícil, pouco tolerante, radical. ao longo dos anos, tenho tentado contrariar isso, numa espécie de work in progress que, dizem-me, tem dado alguns frutos. por vezes, admito com alguma vergonha, isso pode tornar-se um problema, porque todos temos falhas e fraquezas e nem sempre isso significa que as pessoas tenham mau fundo. 
mas, se há uma coisa de que me orgulho - no trabalho e na vida - é de não tolerar pessoas com mau caráter, sem coluna vertebral. com a mesma facilidade com que me afasto de quem não me interessa, também permito que as pessoas que chegam de novo sejam recebidas de braços abertos, porque fui educada a pensar que todas as pessoas são boas até prova em contrário. nada mais errado. o certo - eu sei, mas nem sempre pratico - é dar espaço e tempo para que nos conheçamos, numa via de dois sentidos, e para que percebamos que os outros (como nós) só mostram o que querem e só dão aquilo que estão dispostos a dar, na medida dos seus interesses. 

serve isto para dizer que já dei várias cabeçadas pela vida fora. à medida que fui crescendo e os meus horizontes se foram alargando, fui deixando pelo caminho algumas pessoas que, por uma ou outra razão, se portaram mal comigo ou com alguém que me era próximo. é raro (mas, lá está, é também algo que tenho tentado mudar) dar segundas oportunidades a quem me magoa ou a quem me demonstra, às vezes inconscientemente, sem se dar conta de que o faz, que afinal o seu caráter é pouco recomendável. tenho uma amiga que diz que sou demasiado transparente, que se percebe de imediato quando gosto ou não de uma pessoa. não sei bem se isso é um defeito, mas a verdade é que não perco tempo com pessoas que não me trazem nada de bom e não lhes escondo isso. se tiver de trabalhar com elas, claro que o faço e tento que seja da forma mais pacífica possível. mas, como para nossa casa só convidamos quem queremos, há pessoas com quem não voltarei a ir para os copos. 
fazendo uma analogia com o que uma colega comentava há dias, quando aceitamos ser amigos de alguém que não conhecemos numa rede social, vamos dando pistas sobre a nossa vida sem nos apercebermos, através das nossas publicações: fotografias com os nossos amigos ou família, os locais por onde andamos, os nossos gostos, os nossos estados de espírito e por aí fora. tudo junto, basta estar minimamente atento, esses amigos desconhecidos (e por vezes indesejáveis) acabam por traçar o nosso perfil.
serve isto para dizer que, na vida real, isso funciona exatamente da mesma forma: aquilo que escrevemos e publicamos e as conversas que temos (esquecendo-nos de que o mundo é uma ervilha e toda a gente se conhece... ou conhece alguém que conhece alguém) nem sempre correspondem à pessoa que queremos aparentar. pode demorar algum tempo, mas juntando as peças todas, há um momento em que chegamos lá. desconfio sempre (é talvez o que mais me irrita) de alguém que condena os outros e critica a sua forma de vida, de forma absolutamente gratuita, para, algum tempo mais tarde, serem melhores amigos; como desconfio sempre de pessoas para quem o sol brilha todos os dias; ou ainda de quem tem a vida perfeita, sempre com mil projetos a nascer... mas que acabam por nunca ver a luz do dia, com o acréscimo de que a culpa é sempre dos outros. acredito que estas pessoas me têm tornado mais céptica em relação ao mundo, mas também a elas tenho de agradecer por esses ensinamentos. 
há um ditado popular antigo, que diz que se pode enganar algumas pessoas durante algum tempo... mas não se engana toda a gente o tempo todo. é isso.

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