2016

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10 maio 2016

o amor e (a velocidade d)o tempo

tinha este texto guardado nos favoritos desde janeiro. quando o comecei a ler, há pouco, avaliando pelo título, fiquei embevecida, porque lhe adivinhei um rumo que era semelhante à minha crença. para constatar, à medida que os parágrafos se sucediam, que o mundo se equilibra assim, de pessoas que divergem e não há mal nenhum nisso. 
eu, romântica me confesso: não gosto da facilidade de se ser feliz todos os dias, sempre a descobrir amores, a confundi-los com paixões para, no final, perceber que o desejo é bom, mas passa depressa. e acredito (mesmo) que, se todas as pessoas pudessem escolher, não era isso que queriam para as suas vidas. porque todos nós - mesmo que não o saibamos - procuramos rotinas, um porto seguro e saber com quem contar.



O amor a sério perdeu-se na evolução desmedida dos tempos. Ficou para trás, nas cartas dos nossos avós, numa corrida de três dias a pé para se ver um sorriso, na berma de um cruzeiro que atracava por dois dias, no esforço da conquista, nas mãos do carteiro, nos segundos que pareciam horas.
A minha geração reaprendeu a amar diferente, moldou-se à intensidade de um tempo que não tem tempo para amar, que vê passar os dias a um ritmo alucinante, onde o amor ocupa um lugar fugaz, mas presente.
Antes, o tempo era apertado, a esperança era o dobro da esperança média de vida e a ausência de tempo para se ser feliz, fazia com que se amasse uma vez e para sempre. E mesmo assim roubavam-se horas para um toque no rosto ou um abraço sentido.
Hoje, o amor está ali, no "chat", se não estiver num café está no outro e se não for hoje é na semana que vem. Não se conhece a essência, não se sabe de que matéria é feito e ainda nos damos ao luxo de não queremos amar, porque não queremos sofrer.
A facilidade da conquista remove-lhe o título e a ausência da pessoa de quem gostamos está a uma chamada por "skype" quatro ou cinco vezes ao dia.
O sentimento é tão banal que podemos amar meia dúzia de vezes ao ano. A " tal " é sempre a próxima e a intensidade por vezes é tão pouco empregue que vamos sempre com o sentimento de: "...pode não correr bem. ".
Entregamos a alma ao rapaz da pizza da semana passada e na seguinte estamos apaixonados por alguém que nunca vimos pessoalmente.
Amamos quem não conhecemos, por vezes forçamos o sentimento e outras vezes achamos que devemos ir com mais calma, como se o amor tivesse um limite de velocidade quando se sente verdadeiramente.
A surpresa já não existe, o destino já nem é uma hipótese a considerar e confundimos amor com paixão e paixão com desejo.
Sei que hoje já não corremos quilómetros para entregar uma for, porque mandamos o estafeta a casa. O piscar de olhos foi trocado pelo "smile emotion" e a mão já não sente suavemente o rosto porque serve para disparar a "selfie" que se vai enviar.
Hoje sabemos tudo, no primeiro encontro, já nos disse que os sapatos iam combinar com a camisa e o perfume que se usa foi revelado na primeiras três horas de conversa por "sms".
Mesmo assim e contra as adversidades que nos são impostas, acredito que hoje o amor é mais presente, existe em maior quantidade. Acredito que amar faz bem e sou apologista de que se ame muitas vezes, que se ame sempre, porque quando amamos somos mais felizes, porque nos desdobramos e podemos ser melhores...melhores a sentir a dar ou a receber.
Substituímos a conquista pela versatilidade ou a impaciência pela paciência.
Hoje o amor pode ser "low cost" ou "fast food", mas a intensidade ultrapassou a escala. Não se ama em dimensão, mas não é por mal; é porque tem que ser assim. A arritmia é mais presente e o coração volta e meia parece não ganhar para o susto.
Andamos deprimidos meio ano, depois passamos outro meio ano a flutuar, mudámos de parceiro e voltámos a dar asas ao coração e libertámo-nos para voltarmos a viver.
Já não assinamos termos e condições na hora de entregarmos a alma e o corpo. Podemos até banalizar o sentimento puro, mas a culpa não foi nossa, foi da evolução que o tempo tomou, é da época, dos avanços sem recuos.
Eu próprio já perdi o rumo ao amor, desconheço-lhe a magia e conheço-lhe a previsibilidade. Mesmo assim acarreto em mim a esperança de um dia poder abrir os olhos e sentir a firmeza do entrelaçar das mãos, de me esquecer do tempo e do espaço. Do momento ser ímpar por ser partilhado e da outra pessoa ser a minha condição de vida, de a fazer sentir-se única ainda que rodeada por multidões. De lhe apresentar os jardins...flor a flor. De a levar a jantar ao telhado do prédio, de a vista ser só uma: a nossa.
De nos esquecermos de acender a lareira em dias frios e sentirmos a brisa em conjunto. Dos dias agrestes serem confundidos com os suaves e das tempestades serem arritmias sentidas pelo coração quando a ausência marcar presença. Da lua cheia ser a vela que se acende todos os meses. De comemoramos as datas todas, porque não há dias para se amar de menos ou de mais.
Acredito nisso e ainda que o façamos de forma diferente, porque o século mudou e ele mudou o resto, estaremos na mesma a esboçar um sorriso ou muitos (se o carteiro deixar de existir, as borboletas no estômago permanecerão). Acredito que hoje podemos amar mais e por mais vezes, mas será dessa forma que acordaremos mais dias felizes. Que o toque do despertador seja o ritmo do coração e se o adiarmos de cinco em cinco minutos ele voltará a tocar.
O amor pode ter perdido em autenticidade mas ganhou em exagero, e desde quando amar em excesso pode fazer mal?...Que se ame...cada vez mais. Sortudo daquele que ama todos os dias.
O amor será sempre amor, independentemente da época, e da forma como se manifesta, não é melhor nem pior...é diferente.

Marco Gil in P3, Janeiro de 2016

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