2016

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28 agosto 2016

O curso do amor

as relações amorosas, tal como elas são, parecem-nos, a nós que as vivenciamos, únicas e irrepetíveis. mas quantas vezes damos por nós a ouvir a letra de uma canção e a achar que conta a nossa história? ou em quantos filmes já suspirámos e nos comovemos, ao reencontrar no ecrã excertos daquilo que vivemos?
este livro conta-nos uma história de amor, desde que ela nasce, passando pelo seu amadurecimento, até ao momento em que é preciso tomar a decisão final: ir agora ou ficar para sempre. o romance é intercalado por passagens mais ou menos filosóficas, mais ou menos psicológicas, que interpretam as personagens à luz dos seus comportamentos. 
pode passar-se na Grã Bretanha, entre dois arquitetos de nacionalidades distintas, que tiveram dois filhos e umas quantas peripécias pela vida fora. os nomes mudam, a geografia também, mas quantas são as histórias de amor que diferem disto? se estas não forem razões suficientes para lerem este livro, não sei o que será.



"No cerne de um amuo reside uma mistura confusa de intensa cólera e de desejo igualmente intenso de não comunicar a que se deve. O amuado precisa desesperadamente que a outra pessoa o compreenda, ao mesmo tempo, no entanto, que permanece totalmente empenhado em nada fazer para a ajudar a compreender. A própria necessidade de explicar constitui o âmago do insulto: se o parceiro precisa de uma explicação, ele ou ela não é digno claramente de a receber. Deveríamos acrescentar: é um privilégio ser destinatário de um amuo; significa que a outra pessoa nos respeita e confia em nós o suficiente para pensar que devíamos compreender a sua muda mágoa. É um dos mais estranhos dons do amor". (p. 73)

"Há apenas uma pessoa a quem podemos expor o nosso catálogo de agravos, uma pessoa que pode ser recetora de toda a raiva acumulada contra as injustiças e imperfeições das nossas vidas. É o cúmulo do absurdo, claro está, culpá-la. Mas isto é compreender mal as regras ao abrigo das quais o amor opera. É porque não podemos com as forças que são realmente responsáveis que nos encolerizamos com aqueles que temos a certeza que melhor nos vão tolerar que os culpemos. Vingamo-nos nas pessoas mais simpáticas, mais leais que há na vizinhança, aquelas que, provavelmente, menos mal nos terão feito mas que é mais provável que se mantenham ao nosso lado enquanto as increpamos sem piedade.
As acusações que fazemos aos nossos amantes não fazem particular sentido. A mais ninguém neste mundo diríamos coisas tão injustas. Mas as nossas descabeladas acusações são uma peculiar prova de intimidade e confiança, um sintoma do próprio amor - e à sua maneira uma perversa manifestação do nosso empenhamento. Enquanto somos capazes de dizer coisas sensatas e corteses a qualquer estranho, é só na presença do amante que cremos de todo o coração que podemos atrever-nos a ser extravagante e ilimitadamente irrazoáveis". (p. 102)

Alain de Botton in O Curso do Amor

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