2016

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10 março 2015

da humildade

há uns anos largos, tive um namorico com um rapaz, que durou muito pouco. eu gostava dele, ele dizia que gostava de mim, saímos algumas vezes, divertimo-nos. mas, quando a coisa começou a ficar séria, sem que nada o fizesse prever, ele deixou-me. e, como se isso não bastasse, tratou-me mesmo mal na altura, sem nenhuma razão. foi a nossa primeira e última discussão. desde esse dia, sempre que nos cruzávamos circunstancialmente, o ambiente era constrangedor, com um olá de nariz torcido. não percebi o que aconteceu. não tinha que ser!, era a frase que mais repetia e que durante algum tempo me confortou. superei o desgosto e segui em frente, sem nunca pensar muito nisso. 
até que, tantos anos depois, recebi um mail dele. um mail humilde e sincero, a explicar que está a passar por uma situação complicada (uma separação, parece-me) e a pedir desculpa, porque agora sabe e sente o mal que me fez e quanto me magoou. e atribui a esse momento infeliz (mais do que superado e esquecido) uma espécie de castigo que está a pagar agora. confesso que foi tão inesperado que fiquei sem reação. acho, acima de tudo, que é preciso uma grande dose de coragem e de humildade para admitir o erro e pedir desculpa por ele. sobretudo passado tanto tempo, os dois já adultos e com vidas tão diferentes e distantes. acho que me surpreendeu também esta capacidade que vamos perdendo de acreditar nas pessoas e, com um gesto tão simples, percebermos que afinal a humanidade pode não estar assim tão perdida. 

2 comentários:

Ana Burmester Baptista disse...

Há coisas que são mais fortes que eu e tenho de as deitar cá para fora: cá se fazem, cá se pagam. Não penses que tenho esta costela vingativa, mas é um "dizer" de que não me esqueço e que nunca falha, assim como a justiça divina (seja lá quem o divino seja).
Mas sim, agora dou a mão à palmatória: não custa baixar a guarda e assumir os erros, pedir desculpa, ser humilde. É das qualidades que mais estão em extinção, que cada vez falta mais. E isso doi-me.

Enjoy the Ride disse...

é verdade o que dizes, Ana. também acredito que aquilo que semeamos à nossa volta nos é devolvido.
todos nós, em algum momento da vida, magoámos alguém, ainda que inadvertidamente. surpreendeu-me foi esta capacidade de reconhecer que a vida está atenta e nos dá de volta o que damos aos outros. se toda a gente tivesse este dom, o mundo seria um lugar muito melhor. :)