Os Apontamentos de Trigorin


tenho a sorte - grande sorte - de o meu trabalho me permitir assistir a muitos espetáculos: de antestreias de cinema a concertos, passando por peças de teatro ou exposições, há todo um mundo de coisas de que provavelmente não me aperceberia que acontecem em Lisboa (e fora dela) se não trabalhasse na rádio. 
na semana passada, fui assistir a uma peça porque uma amiga que adora teatro insistiu comigo para ir. confesso que não sou a melhor espectadora de teatro, mas fiquei tão curiosa quando li sobre a peça que fui. primeiro, assustei-me quando nos disseram que demorava duas horas. sem intervalo. mas já lá estava, mais valia aproveitar. 
se vos disser que as duas horas passaram a voar, é a mais pura verdade. bom texto, excelentes atores, bom ritmo. mas o que mais me impressionou (e emocionou, há que dizê-lo) foi a presença de uma atriz que já admirava muito, mas depois desta peça admiro muito mais: Custódia Gallego. no final de agosto, a Custódia Gallego perdeu o filho, de 32 anos, para o cancro. a mesma Custódia Gallego que, três meses depois, sobe a um palco para interpretar uma personagem tão densa e com um fim tão trágico. não sei como é que se passa por uma dor tão dilacerante. mas acredito que só a paixão e o respeito pelo teatro a tenham levado a levantar a cabeça e fazê-lo. sem retirar qualquer mérito aos restantes atores e ao texto, acho que o meu lado emocional e de empatia com ela foram decisivos para eu ter ficado tão tocada pela peça. de resto, fez-me muita confusão ver uma sala tão pequena e tão pouco cheia, sobretudo porque um bilhete para o teatro custa bastante menos do que um bilhete para o cinema... e nós optamos quase sempre pelo segundo.
se puderem, não deixem de ver Os Apontamentos de Trigorin, em cena no Teatro da Comuna, até dia 16 de dezembro. pela peça, pelos atores, mas sobretudo por este lado quase sobre-humano que alguns atores de teatro parecem ter e que lhes dá forças para seguir em frente, independentemente do que a vida lá fora lhes reserva.

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